Afortunados são aqueles que têm a sorte de fundir a paixão e o trabalho. A maioria de nós tem de lidar com um trabalho com o qual não nos identificamos a 100 por cento, para depois chegarmos a casa e nos dedicarmos à nossa paixão. Para a fundadora deste novo restaurante setubalense, o cenário é bem diferente, uma vez que sempre soube que nasceu para cozinhar.
Bellange Ndecky, guineense-senegalesa de 46 anos, sempre foi cozinheira. “Tirando os meus filhos, cozinhar é a minha vida”, começa por contar à New in Setúbal. Antes da pandemia de Covid-19, trabalhava num café em Corroios, no Seixal. Porém, depois de viver uma situação em que se sentiu injustiçada, decidiu despedir-se e nunca mais trabalhar para ninguém. Queria ser dona de si mesma e do seu próprio estabelecimento.
Nesse dia, chegou a casa e disse à filha que não sabia ainda como, mas que ia começar a cozinhar e a vender a sua comida sozinha. Assim nasceu a ideia do Tempero da Bela, que começou como um serviço de cozinha caseira. Bellange acordava de madrugada para cozinhar e a filha fazia as entregas. Começaram o pequeno negócio juntas, que conseguiram fazer crescer graças ao Facebook e ao passa palavra.
Devido ao grande volume de trabalho, abriram o primeiro restaurante Tempero da Bela, em Corroios. No entanto, devido à crise imobiliária, a renda do espaço duplicou e tiveram de abdicar deste sonho.
O problema das rendas não afetou apenas o negócio, mas a sua própria residência, obrigando Bellange a mudar de casa. Do Seixal, foi para o Barreiro, onde vive há sete meses. Era nesta cidade da Margem Sul que planeava reabrir as portas físicas do seu restaurante, mas, para sorte dos setubalenses, apenas encontrou um espaço bom e acessível no nosso concelho.
O restaurante, no bairro das Amoreiras, que abriu no dia 24 de abril, apresenta uma fusão de comida portuguesa, africana e brasileira. “Sou uma mulher extremamente curiosa. Então, sempre gostei de ir a restaurantes e experimentar todo o tipo de comida. Mas fazia-me confusão que os restaurantes africanos só vendessem moamba ou cachupa”. Devido às suas origens, sabia que a cozinha africana tinha muito mais a oferecer e decidiu que queria apresentar essa variedade a Portugal.
Como o conceito do restaurante diz que todo o prato tem uma história, a dona do Tempero da Bela afirma que a comida africana é o que lhe “corre nas veias”. Já a gastronomia portuguesa confessa ter aprendido com o ex-marido. Foi graças a um grande amigo, que lhe disse: “Não saímos daqui até tu saberes fazer todos estes pratos como uma verdadeira bainana”, que se tornou expert em comida brasileira. As ligações que fez durante a vida são a sua inspiração, que em conjunto com o seu amor pela cozinha, criaram esta fusão de pratos portugueses, africanos e brasileiros.
Além dos temperos, todos os pratos carregam uma história profunda e o caldo de mancarra, do Senegal, é um desses exemplos. A responsável revela que, quando era miúda, na época natalícia, todos os amigos tinham árvores de Natal. Um dia, chegou a casa a chorar, porque a família dela não tinha a sua árvore.
Perante a tristeza da menina, o pai arranjou logo uma árvore verdadeira e enorme para a filha. Mas esta não foi a única coisa que fez para animar a pequena Bellange. “Ele foi para a cozinha e fez um caldo de mancarra, que não era para mais ninguém em casa, não era para a minha mãe nem para os meus irmãos, era só para mim”, confessa.
Os pratos mais famosos são a cachupa e o bobó de camarão, que é a especialidade da casa. Nenhuma opção ultrapassa os 15€ e o estabelecimento está encerrado apenas aos domingos. Durante a semana, funciona das 12 horas às 15 horas para almoços e depois das 19 horas às 22h30 para jantar. No sábado, o horário de almoço é igual, mas ao jantar encerra mais tarde, às 23 horas.
Carregue na galeria para descobrir alguns dos pratos do Tempero da Bela.

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