comida

A Ratoeira tem a melhor caldeirada do mundo — palavra de setubalense

Traz peixe fresco e fígados, muitos fígados. No final, ainda tem direito a uma massinha.
A caldeirada tem um bom tempero.

Cresci com o meu avô Zé a chegar da pesca com baldes cheios de santolas, que largava pelo quintal enquanto eu e a minha irmã fugíamos a correr. Cresci com o meu avô Zé a pôr o fogareiro à sombra, cadeiras ao redor, e mesmo ali punha o tacho ao lume, enquanto amanhava o que o Sado lhe dera dessa vez. Certo dia, assisti à minha mãe a mandar para trás uma travessa de peixe seco, que lhe queriam vender em Portimão como se fossem besugos frescos. Mal sabia aquele funcionário que a minha mãe cresceu como eu. 

Cresci sentada no barco de madeira ao lado do meu avô Zé, enquanto ele, homem alto, magro e com a cara queimada de tanto sol, me explicara vezes sem conta o que ainda o fazia estar ali. Eu gostava de o ouvir e de depois ir para a escola gabar-me que ninguém comia melhor peixe do que eu. 

Hoje, já sem o meu avô Zé a comandar o leme ou o fogareiro, ninguém me engana quando a especialidade são pratos setubalenses. Por isso, quando me convidaram para ir almoçar ao A Ratoeira, no final da avenida Luísa Todi, e me disseram que ia comer “a melhor caldeirada de peixe do mundo”, não fui, obviamente, com as expectativas altas. 

Já tinha ouvido falar muito deste restaurante, que tinha pratos de tacho muito bons por encomenda. Nunca lá tinha ido. E confesso que achava pouco modesto alguém ousar dizer que ia comer uma caldeirada melhor do que a do meu avô Zé.

Quando lá cheguei encontrei um espaço muito simples, com gentes simpáticas. Pão, vinho e queijo na mesa, faltava a mais esperada. Não demorou nem 10 minutos a fazer-se notar. O cheiro a um bom tempero não engana uma setubalense de 29 anos. 

Quando abri o tacho percebi que o mundo pode mesmo ser um lugar bonito. E a felicidade, por vezes, traduz-se em peixes frescos apanhados no rio Sado, como raia, tamboril, salmonetes e, claro, fígado, muito fígado. A isso, junta-se uma boa dose de batatas cozidas às rodelas, pimentos, tomates maduros e cebola, muita cebola.

A melhor caldeirada do mundo.

Confesso que, pela primeira vez, senti que alguém podia fazer algum tipo de concorrência ao meu avô. Não lhe ganhara no ambiente ao redor do fogareiro, isso nunca, mas cozinhava uma caldeirada daquelas que apetece repetir logo na refeição a seguir. A culpa é da dona Ana Maria, a cozinheira.

Sentia-se o sabor a peixe fresco, apanhado naquela noite. Tinha o tempero certo e o sal não estava em demasia. Para a mesa veio um piri-piri caseiro, que os mais corajosos provaram sem hesitar. Na minha opinião, achei que não era preciso. 

No fim, quando toda a gente da mesa estava já pronta a pedir uma sobremesa, o senhor Júlio (dono do espaço) ganhou mais cinco pontos (e eu uma saudade tremenda da minha infância). À mesa chegaram pratos com uma massa que é feita com o caldo que sobra do tacho. Um apontamento que nem todos se dão ao trabalho de fazer, mas que faz toda a diferença numa caldeirada à setubalense. 

Se quiser provar esta maravilha, saiba que deve ligar para o restaurante (265 533 622) e fazer a marcação com 24 horas de antecedência. Pode tentar a sorte no próprio dia, mas não é garantido que consiga pois o senhor Júlio só trabalha com peixe fresco. A caldeirada custa 12,50€ por pessoa (350 gramas de peixes por pessoa). Se quiser, pode pedir apenas caldeirada de tamboril pelo mesmo preço). 

tags: a ratoeira, caldeirada, caldeirada à setubalense, refeição, restaurante, setúbal

localização, contactos e horários

morada
  • A Ratoeira [ver mapa]
    Rua de São Filipe, 1
    2900-457 Setúbal
horários
  • Terça a sábado
  • Das: 12:00
  • Às : 22:30